Os Maias

1.Autor d’ Os Maias, Eça de Queirós foi uma figura representativa do Realismo português, tendo tido um papel ativo na sociedade, nomeadamente através da participação nas denominadas “Conferências do Casino”, cuja intenção dos oradores era refletir sobre as mudanças sociais e políticas que ocorriam na Europa e alcançar uma transformação da realidade portuguesa, à época  considerada por aqueles como atrasada e estagnada.

2. O romance Os Maias conta a história da família Maia, através de quatro personagens masculinas, que representam quatro gerações, correspondentes a momentos históricos, políticos e culturais diferentes da sociedade portuguesa. Caetano da Maia tem correspondência com o período da decadência do Absolutismo e integra-se no período literário do Neoclassicismo. Afonso da Maia tem correspondência com o período da revolução liberal e integra-se no período literário da primeira geração romântica. Pedro da Maia tem correspondência com as crises do liberalismo e integra-se no período literário do ultrarromantismo. Carlos da Maia tem correspondência com a Regeneração e integra-se no período literário do realismo.

3. O subtítulo da obra “Episódios da Vida Romântica” traduz uma visão crítica de uma época, resultando num conjunto de episódios, que se articulam com a ação principal, e onde estão representados os defeitos caracterizadores da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. O leitor é conduzido aos locais frequentados pelos importantes do reino e acede ao retrato desse Portugal provinciano, exprimindo desse modo o autor a necessidade de serem reformados os hábitos, os costumes e, sobretudo, as mentalidades.

4. Portugal é, assim, a grande personagem que emerge na obra, integrada na história da família Maia, cujo núcleo central é a relação incestuosa entre Carlos e Maria Eduarda.

5. O plano da intriga apresenta uma ação secundária, que envolve Pedro e Maria Monforte, e uma ação principal, centrada em Carlos e Maria Eduarda. A intriga secundária, que surge como introdução e permite a apresentação de Afonso da Maia como fator de unidade, centra-se na personagem Pedro. A intriga principal, que mantém a dimensão trágica e a amplifica, incide nas relações incestuosas de Carlos e Maria Eduarda, culminando na morte do avô. Com a desagregação da família, o último capítulo constitui o epílogo, onde Carlos e Ega admitem o fracasso de uma vida e verificam o atraso do país.

6. Obra de organização temporal complexa, Os Maias apresentam, como preparação da ação principal, uma longa analepse, que abrange o período temporal de antes de 1800 e se estende até 1875, que corresponde ao ano do presente da ação principal da obra. Nesta longa analepse, temos a referência a Caetano da Maia, a juventude de Afonso e o seu casamento com Maria Eduarda Runa, bem assim como o seu exílio com a família em Inglaterra. A educação de Pedro da Maia e a sua relação com Maria Monforte, o nascimento de Maria Eduarda e de Carlos, a fuga de Maria Monforte com o italiano, o suicídio de Pedro, a educação de Carlos e a sua infância em Santa Olávia, bem assim como os anos da sua formação em Coimbra são também parte integrante desta longa analepse. Por sua vez, a ação principal tem a duração de um ano e meio, desde o Outono de 1875 a Janeiro de 1877, e corresponde ao enamoramento de Carlos por Maria Eduarda, culminando no desfecho trágico, decorrente da revelação de que são irmãos, e na morte do avô. O epílogo da obra sucede em Janeiro de 1887, tendo aqui lugar uma longa elipse de dez anos, correspondente à viagem de Carlos pela Europa e sua permanência em Paris.

7. Por outro lado, pode-se considerar que a obra apresenta uma ação de natureza trágica, que advém da importância atribuída ao destino, da presença de presságios, da própria temática do incesto, e do desenvolvimento da intriga, que segue as etapas clássicas de uma tragédia, com uma peripécia (mutação súbita dos acontecimentos, quando a relação entre Carlos e Maria Eduarda parecia tranquila), o reconhecimento do erro e a catástrofe. 

8. Os Episódios da Crónica de Costumes:

Jantar no Hotel Central (capítulo VI)

Jantar organizado por Ega, durante o qual Carlos é apresentado à elite da sociedade lisboeta. São discutidos temas como a Literatura (romantismo/realismo e naturalismo) e a situação financeira de Portugal, que é sinal da decadência do país. 

Relação com a ação principal: Carlos vê Maria Eduarda pela primeira vez.

Corridas de cavalos no hipódromo (capítulo X)

Neste episódio, temos uma visão caricatural da sociedade lisboeta, que pretende imitar o que é estrangeiro de uma forma inadequada, fruto da mentalidade provinciana da alta burguesia nacional.

Relação com a ação principal: Carlos procura um encontro com Maria Eduarda de modo a que esta lhe seja apresentada.

Jantar em casa dos Gouvarinhos (capítulo XII)

Este jantar evidencia uma crítica àqueles que são os mais altos funcionários da nação, através dos s     eus comentários medíocres acerca da instrução e do ensino, da educação das mulheres e do seu desconhecimento acerca daquilo que é estrangeiro.

Relação com a ação principal: Carlos descobre que as suas visitas à casa de Maria Eduarda, na rua de S. Francisco, que ele queria discretas, são do conhecimento público.

Redação do Jornal A Tarde (capítulo XV)

Neste episódio, está presente a parcialidade do jornalismo da época, que favorece o clientelismo partidário. Neves, o diretor do jornal, aceita publicar a carta, na qual Dâmaso se retrata, como forma de pagar favores pessoais.

Relação com a ação principal:  A carta de Dâmaso é o fator que despoleta o encontro de Guimarães com Ega, em que aquele revelará a verdadeira identidade de Maria Eduarda.

Sarau no Teatro da Trindade (capítulo XVI)

O Sarau da Trindade é um espelho do Portugal atrasado e medíocre, que Eça pretende criticar; sendo aplaudidas a poesia ultrarromântica de Alencar e a oratória vazia de conteúdo de Rufino, em detrimento do desempenho musical de Cruges. A alta burguesia é inculta e ignorante e os temas das conversas são superficiais.

Relação com a ação principal: Revelações de Guimarães a Ega sobre a verdadeira identidade de Maria Eduarda, que precipitam o desfecho trágico da ação.

Epílogo: Passeio Final de Carlos e Ega (capítulo XVIII)

Regressado a Lisboa, e acompanhado por Ega, Carlos realiza um passeio simbólico pelos lugares emblemáticos da cidade de Lisboa (e passando pelo Ramalhete). Passados dez anos, Carlos encontra uma cidade que não evoluiu, está tudo igual, tendo-se instalado a decadência, como se pode verificar, simbolicamente, nas ruínas do jardim do Ramalhete. Num vivo diálogo final, Ega e Carlos assentam numa teoria da vida: o fatalismo muçulmano. O fatalismo aqui presente, que parte da ideia que o ser humano não tem capacidade para fugir ao que lhe está destinado, contraria as teses naturalistas de caráter determinista. Contudo, simbolicamente, no final, contrariando a teoria do fatalismo, de nada querer e nada desejar, Carlos e Ega correm para apanhar o “americano”.

9. O tema da educação é tratado na obra com particular relevância. Para o autor, esta questão explica o comportamento e a mentalidade da sociedade portuguesa do século XIX e as personagens tais como Pedro da Maia e Eusebiozinho e Carlos da Maia tipificam as características de dois modelos que são antagónicos. Assim, temos a educação tradicional portuguesa, de caráter religioso, convencional, seguindo o uso da cartilha, e recusando a prática do exercíco físico e do contacto com a natureza. Esta educação formou indivíduos fracos e sem espírito crítico, incapazes de uma ação consequente de renovação da sociedade. Por outro lado, a educação inglesa caracterizou-se pelo desenvolvimento da inteligência, defendendo valores humanistas e apoiada no conhecimento direto e experimental da realidade, com uma forte ligação à natureza e desenvolvendo a cultura física e o conhecimento das línguas vivas. Carlos assume-se, assim, como o indivíduo preparado para a vida e capaz de contribuir para a renovação da sociedade, que fracassou, não pela educação, mas pelo seu caráter diletante, associado a um destino implacável.

10. Na obra, a conceção das personagens assenta numa estética naturalista, já que fatores como a hereditariedade, a educação e o meio social determinam o caráter dos indivíduos. Embora a dimensão trágica do incesto, que atinge a família, nos surja como um elemento de natureza diferente, que se alicerça no poder transcendente do destino.

11. A prosa queirosiana caracteriza-se pelo recurso ao discurso indireto livre, ganhando a narrativa uma maior dinâmica discursiva, que permite uma diversificação de registos. O autor recorre, por outro lado, aos estrangeirismos e, em termos estilísticos, é frequente o uso da ironia.