Os Lusíadas

1.       Os Lusíadas, publicados em 1572, são a mais importante epopeia do período renascentista, que, seguindo a estética de imitação dos modelos gregos e romanos, encontram no grande feito dos Descobrimentos portugueses a matéria para sustentar o confronto com os grandes heróis da Antiguidade Clássica, celebrados na Íliada e na Odisseia de Homero e na Eneida de Virgílio.

2.       Neste sentido de imitar os modelos clássicos, próprio do Renascimento, Camões apresenta uma obra que segue as regras do género épico tal como consagrado pelos Antigos. O seu poema épico está dividido em quatro partes: Proposição (apresentação do assunto); Invocação (pedido de inspiração para escrever o poema, no caso d’ Os Lusíadas, o pedido é feito às Tágides, ninfas do Tejo); Dedicatória (oferecimento da obra a uma figura ilustre, no caso d’ Os Lusíadas, a obra é oferecida ao então jovem rei D. Sebastião); Narração (desenvolvimento do assunto). A ação épica, que deve ter grandeza e solenidade e ser expressão de heroísmo, encontra na história da viagem de Vasco da Gama a exaltação do espírito do povo português. A existência de episódios (como é o caso da narração da história de Portugal) não só dá extensão à epopeia como também a enriquece. O maravilhoso (representado nas intervenções dos deuses) deve intervir na ação. O início da Narração deve ser feito com a ação já numa fase adiantada (in media res). Assim se observa que Os Lusíadas seguem de forma rigorosa os modelos gregos e romanos.

3.       Do ponto de vista da estrutura da Narração, Camões construiu a sua epopeia a partir da articulação de quatro planos, sendo três deles narrativos (plano da viagem; plano da história de Portugal; plano do Maravilhoso Pagão) e um último, de natureza lírica, o plano das intervenções do poeta.

4.       Como plano narrativo fulcral temos o plano da viagem de Vasco da Gama à Índia e regresso a Portugal. Continuamente articulado com ele, surge um outro plano, o do Maravilhoso Pagão, que, quase sempre em alternância com o plano da viagem, narra as ações dos deuses do Olimpo, que são adjuvantes ao sucesso do empreendimento português de chegar à Índia (caso de Vénus) ou que são oponentes a esse mesmo objetivo (caso de Baco). Por outro lado, o plano da história de Portugal, e do início da viagem, surge como uma narrativa encaixada no plano fulcral da viagem, já que, na paragem da armada portuguesa em Melinde, o rei de Melinde pede a Vasco da Gama que lhe conte a história do povo português e o modo como chegaram, por mar, até àquela terra. Neste plano (o da história de Portugal e do início da viagem), há uma mudança de narrador e é Vasco da Gama que narra ao rei de Melinde os grandes feitos ilustres lusitanos. Finalmente, mas não menos importante, temos o plano das intervenções do poeta, que, habitualmente, surge no final de cada Canto, havendo, para esse efeito, uma interrupção da narração. Estas intervenções do poeta assumem a forma de reflexões, críticas, lamentações, exortações.

5.       N’ Os Lusíadas é feita a mitificação do herói. Os navegantes e, em especial, Vasco da Gama ultrapassam a sua individualidade humana e tornam-se símbolo do heroísmo lusíada e do seu espírito intrépido de aventura. O prémio concedido aos argonautas, na Ilha dos Amores, consagra os seus feitos e eleva-os a uma dimensão superior, na qual em como que é alcançada a imortalidade.

6.       No plano das intervenções do poeta, podemos destacar o seguinte:

- Canto I, estâncias 105-106 – reflexão sobre a dimensão humana e os perigos que ameaçam o homem;

- Canto V, estâncias 92-100 – reflexão sobre a importância das letras e crítica à nação portuguesa por não as saber cultivar;

- Canto VI, estâncias 95-99 – reflexão sobre o valor das honras e das glórias merecidamente alcançadas;

- Canto VII, estâncias 2-14 – reflexão sobre o mérito da propagação da Fé cristã e elogio à nação portuguesa pela sua ação exemplar;

- Canto VIII, estâncias 96-99 – reflexão sobre o poder do dinheiro;

- Canto IX, estâncias 89-92 – reflexão sobre o significado da ilha dos Amores;

- Canto IX, estâncias 93-95 – conselhos a quem pretende alcançar a imortalidade;

- Canto X, estâncias 145-156 – desalento do poeta face aos homens do seu tempo e conselhos a D. Sebastião para que pratique novos feitos dignos da grandeza do seu povo.

7.  No plano da história de Portugal e do início da viagem, cujo narrador é Vasco da Gama, há alguns episódios que se podem salientar:

                - episódio da Batalha de Ourique (Canto III, estâncias 42-54) – acontecimento do reinado de D. Afonso Henriques, alia os factos históricos com a matéria lendária (o aparecimento de Cristo a D. Afonso Henriques, antes do início da batalha), de molde a celebrar o nascimento da nação portuguesa como predestinada a feitos singulares e ao cumprimento de uma missão que a transcende;

                - episódio das despedidas em Belém (Canto IV, estâncias 88- 93) – preparativos para a partida da armada, sendo evocados não só os que partiram, mas também aqueles que ficaram em terra, comungando de um mesmo sacrifício e sofrimento;

                - episódio do Velho do Restelo (Canto IV, estâncias 94-104) – discurso de um velho de «aspeito venerando», ou seja, merecedor de respeito, que critica a partida da armada, considerando que é o desejo de poder e de fama que motiva os argonautas; ele é a voz do senso comum, que critica os altos desejos de uma nação, que, por esse facto, na sua opinião, se lança a perder tudo quanto tem;

                - episódio do fogo de Santelmo e da tromba marítima (Canto V, estâncias 16-23) – descrição de fenómenos da natureza, que constituem perigos ameaçadores para a armada, introduzindo, assim, novos conceitos de saber, que aliam o estudo e a experiência;

                - episódio do Adamastor (Canto V, estâncias 37-60) – acontecimento de ordem sobrenatural, que evidencia, do ponto de vista simbólico, todos os perigos e ameaças inesperadas e desconhecidas que os navegadores tiveram que enfrentar; e, deste modo, se assume a grandeza do herói português;

                - episódio da ilha dos Amores (Canto IX, estâncias 16-91; Canto X, estâncias 77-144) – após vencerem todas as dificuldades, os argonautas regressam vitoriosos à pátria e é-lhes preparada, por Vénus, uma ilha, onde são recompensados de todos os sofrimentos por que passaram e onde os marinheiros são imortalizados através da sua união amorosa com as ninfas; o culminar da glorificação acontece quando Tétis revela a Vasco da Gama o funcionamento da máquina do mundo, saber só da esfera e alcance dos deuses, que é, assim, revelado também aos heróis.